28 Abril 2026 Emerging Markets

Por que os mercados emergentes podem liderar a era da IA agêntica.

Quem resolve IA para operar num ambiente caótico e cheio de restrições constrói algo mais robusto do que quem resolveu para um mundo previsível.

Existe uma suposição confortável de que a próxima onda de inovação em IA vai nascer nos suspeitos de sempre, os grandes centros de tecnologia do hemisfério norte, e só depois pingar para o resto do mundo. Eu acredito que, na era agêntica, essa lógica pode se inverter. E o Brasil é um bom lugar para explicar por quê.

O argumento começa por uma ideia contraintuitiva: às vezes a falta de infraestrutura legada é uma vantagem. Mercados maduros carregam décadas de sistemas antigos, processos cristalizados e investimentos que ninguém quer admitir que envelheceram. Cada camada de tecnologia acumulada vira um peso na hora de mudar. Mercados emergentes, por não terem construído toda essa herança, conseguem pular etapas inteiras. Foi assim que o Brasil pulou o cheque e o cartão para o pagamento instantâneo, e virou referência mundial em algo que economias mais ricas ainda tentam alcançar.

A IA agêntica abre exatamente esse tipo de janela. Quando a inteligência para de ser um painel que alguém opera e vira um agente que executa, a barreira de adoção deixa de ser capital e vira contexto. Não é preciso um exército de especialistas caros para extrair valor de um agente que raciocina em linguagem natural sobre os dados da operação. Isso democratiza uma capacidade que, nas ondas anteriores de tecnologia, ficava concentrada em quem tinha mais recurso.

Quem constrói para o difícil ganha o direito de competir no fácil.

Some a isso a natureza dos problemas locais. Complexidade tributária, cadeias logísticas de dimensões continentais, informalidade, volatilidade econômica. São problemas duros, e problema duro é o melhor combustível para inovação de verdade. Quem resolve IA para operar num ambiente caótico e cheio de restrições constrói algo mais robusto do que quem resolveu para um mundo previsível. A dureza do contexto vira uma escola que os mercados confortáveis não têm.

Não é ingenuidade. Há barreiras reais: talento concentrado, custo de capital mais alto, infraestrutura de dados ainda irregular em muitas empresas. Eu não estou dizendo que o caminho é fácil. Estou dizendo que a distância de largada é menor do que em qualquer onda tecnológica anterior, porque a IA agêntica reduz a dependência de estrutura pesada e recompensa quem entende profundamente o problema.

E aqui entra uma responsabilidade estratégica. Se a janela existe, ela não fica aberta para sempre. Mercados emergentes têm o costume de importar tecnologia pronta em vez de construir a própria, e com isso repassam para fora o valor que poderiam capturar. A era agêntica é uma chance rara de inverter esse padrão, de construir localmente inteligência que resolve problemas locais, e depois exportar isso para o mundo, e não o contrário.

Eu vejo o Brasil menos como um mercado que espera a IA chegar e mais como um laboratório onde a IA agêntica pode ser provada nas condições mais exigentes.

A pergunta que deixo: seu país, sua empresa, seu time, estão esperando a próxima onda de IA chegar de fora, ou se organizando para serem eles a origem dela?

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Marcio Steffen é Enterprise AI Executive e fundador da Mars Innovation & Technology.

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